A partir da análise de Ernesto Kenji Igarashi, especialista em segurança institucional e proteção de autoridades, as grandes cidades brasileiras vivenciam um paradoxo desafiador: são centros de geração de riqueza, inovação e atividade econômica intensa, ao mesmo tempo em que figuram entre os ambientes urbanos de maior risco do mundo em termos de criminalidade.
Para as empresas que operam nesses contextos, esse paradoxo não é apenas um dado estatístico. Leia mais a seguir e confira!
Como a criminalidade urbana contemporânea desafia os modelos tradicionais de segurança corporativa?
O crime organizado nas grandes cidades brasileiras passou por uma transformação significativa nas últimas décadas. O que antes era, em grande medida, uma criminalidade oportunista e pouco estruturada, tornou-se, em muitos contextos, uma atividade com alto nível de planejamento, uso de tecnologia e capacidade de adaptação às contramedidas adotadas pelo mercado de segurança. Grupos especializados em sequestros de executivos, em roubo de cargas de alto valor e em fraudes corporativas sofisticadas realizam levantamentos prévios detalhados de suas vítimas, mapeiam rotinas, identificam vulnerabilidades nos esquemas de proteção existentes e planejam ações que exploram precisamente os pontos cegos que o modelo de segurança em vigor não cobre.
Tal como destaca Ernesto Kenji Igarashi, essa evolução do perfil criminoso coloca em xeque modelos de segurança corporativa que foram desenhados para ambientes de risco menos sofisticado. A câmera de monitoramento, o vigilante no portão e o veículo blindado são medidas que continuam tendo valor, mas que se tornaram insuficientes como estratégia isolada diante de ameaças que analisam e se adaptam. A segurança corporativa eficiente no contexto urbano brasileiro atual precisa incorporar elementos de inteligência preventiva, variação de rotinas, treinamento comportamental de executivos e colaboradores e uma capacidade de atualização contínua dos protocolos em resposta à evolução das ameaças específicas do ambiente em que a empresa opera.
Quais são os erros mais comuns no planejamento de segurança corporativa em ambientes urbanos de alto risco?
O erro mais prevalente é o planejamento de segurança reativo, que só é revisado após a ocorrência de um incidente. Empresas que aguardam ser impactadas por um evento crítico para revisar seus protocolos operam permanentemente num ciclo de defasagem em relação às ameaças do ambiente. Quando o incidente ocorre, a análise revela invariavelmente que os sinais de vulnerabilidade estavam presentes e poderiam ter sido identificados por um processo preventivo de inteligência e auditoria. O planejamento proativo, que mapeia continuamente as ameaças do ambiente e ajusta os protocolos antes da materialização dos riscos, é o modelo que as empresas mais bem protegidas adotam.

O segundo erro frequente, conforme expõe Ernesto Kenji Igarashi, é a segmentação excessiva entre segurança física, segurança da informação e gestão de pessoas. No ambiente urbano contemporâneo, essas três dimensões estão profundamente interconectadas. Um colaborador que publica a localização de um executivo em tempo real nas redes sociais é um vetor de risco físico. Um sistema de controle de acesso comprometido por falha de cibersegurança cria vulnerabilidade física. A equipe de gestão de pessoas que não realiza verificações de antecedentes adequadas introduz riscos internos que nenhum sistema de monitoramento externo consegue mitigar. Tratar esses domínios como silos independentes é uma limitação estrutural que os grupos criminosos mais sofisticados aprendem a explorar.
O subdimensionamento do investimento em segurança em relação ao risco real do ambiente é o terceiro erro de impacto significativo. As empresas que calculam seu orçamento de segurança com base num percentual fixo do faturamento, sem uma análise técnica do risco específico do seu setor, perfil de operação e localização geográfica, frequentemente chegam a estruturas de proteção insuficientes que dão uma sensação de proteção sem o conteúdo correspondente. O custo de um incidente grave, incluindo danos materiais, impacto reputacional, processos judiciais e eventual paralisação das operações, invariavelmente supera em múltiplos o investimento que teria sido necessário para preveni-lo.
Como estruturar um planejamento de segurança corporativa eficiente para o contexto urbano brasileiro?
O ponto de partida para um planejamento eficiente é a análise de risco contextualizada, que considera as ameaças específicas do setor de atuação da empresa, do perfil dos executivos e colaboradores, da localização das instalações e do histórico de incidentes na região. Ernesto Kenji Igarashi ressalta que essa análise não deve ser um exercício teórico realizado uma única vez: deve ser um processo contínuo, alimentado por informações atualizadas sobre o ambiente de ameaças e revisado com frequência suficiente para refletir as mudanças no cenário. Empresas que fazem análise de risco uma vez e arquivam o resultado por dois anos estão construindo sua estratégia de segurança sobre um mapa desatualizado.
Com base na análise de risco, o planejamento deve definir medidas proporcionais para cada nível de ameaça identificado, com clareza sobre o que cada medida protege, contra qual tipo de ameaça e com qual nível de eficiência esperado. Essa estruturação evita tanto o sub-investimento em áreas críticas quanto ao sobre-investimento em contramedidas de baixo retorno de proteção real. Ela também cria uma linguagem comum entre o responsável de segurança e a diretoria, permitindo que as decisões de investimento sejam baseadas em dados de risco, e não em percepções subjetivas ou referências de mercado genéricas.
O treinamento contínuo de executivos, colaboradores e equipes de segurança é o componente que transforma o planejamento em capacidade operacional real. O melhor plano de segurança do mundo é ineficaz se as pessoas que devem executá-lo não estão preparadas para reconhecer as situações de risco, tomar as decisões corretas sob pressão e acionar os recursos previstos no protocolo no momento certo. Para Ernesto Kenji Igarashi, ex-coordenador da equipe tática da Polícia Federal durante a visita do presidente americano George Bush, em 2006, investir em infraestrutura de segurança sem investir proporcionalmente em capacitação humana é construir uma estrutura com as fundações comprometidas: ela pode parecer sólida por um tempo, mas falha precisamente quando mais precisa funcionar.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

