Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, publisher brasileira de jogos digitais com atuação no mercado de games e tecnologia, defende que o estúdio que usa inteligência artificial generativa em um jogo deve decidir cedo como vai comunicar isso, porque o público e as lojas já estão atentos ao tema.
Os números mostram por quê. Com base em análise de Ichiro Lambe, 7.818 jogos da Steam declaram uso de IA generativa, cerca de 7% dos 114.126 títulos da plataforma. No início de 2024, eram cerca de mil, ou 1,1%. A seguir, uma sequência prática para tratar o assunto com clareza.
Primeiro passo: mapear onde a IA entra
Antes de falar com o público, o estúdio precisa saber exatamente o que foi feito com a tecnologia. Imagens, sons, textos, dublagem, traduções e código são áreas diferentes, com implicações diferentes. O levantamento citado indica que a geração de elementos visuais é o uso mais comum, presente em cerca de 60% das declarações.
A Valve, dona da Steam, revisou a orientação, como noticiou o Canaltech em janeiro de 2026. Segundo a publicação, ganhos de eficiência obtidos com essas ferramentas não são o foco da seção de divulgação. A preocupação recai sobre o uso de IA na criação de conteúdo que é enviado com o jogo e consumido pelos jogadores, como arte, som, narrativa e localização.
Na prática, usar uma ferramenta para acelerar o trabalho interno é diferente de colocar no jogo um resultado gerado pela máquina. O estúdio deve ler a política vigente da loja em que publica, porque as regras podem mudar.
Segundo passo: conhecer a opinião do público
A Pesquisa Game Brasil 2026 mediu o tema pela primeira vez: quase metade dos gamers brasileiros se preocupa com o uso de IA em algum nível do desenvolvimento. Entre os entrevistados, 39,3% não deixariam de comprar um jogo feito majoritariamente com IA, e 40,9% admitem que poderiam deixar, segundo o Tecnoblog.
Richard Lucas da Silva Miranda avalia que esse equilíbrio pede cuidado. Segundo ele, a transparência é o que permite ao jogador decidir com informação, em vez de descobrir depois como o jogo foi feito.

Terceiro passo: preservar o trabalho humano
A preocupação aparece também entre os profissionais. No relatório State of the Game Industry de 2026, da GDC, 52% dos entrevistados disseram que a IA generativa tem impacto negativo na indústria, contra 30% no ano anterior.
Por isso, o estúdio deve deixar claro o papel das pessoas na criação: quem desenhou, escreveu, compôs e revisou. Valorizar a equipe na comunicação reduz a percepção de que a tecnologia substituiu o trabalho criativo.
Quarto passo: comunicar de forma simples e direta
A declaração deve ser objetiva. Em vez de termos vagos, vale informar em quais partes do jogo a IA foi usada, em que medida e com que supervisão. Essa informação pode aparecer na página da loja, no site do estúdio e nas entrevistas.
O texto, como ressalta Richard Lucas da Silva Miranda, precisa ser categoricamente coerente em todos os canais. Uma versão na loja e outra nas redes sociais produzem desconfiança.
Quinto passo: acompanhar e ajustar
A comunicação não termina no lançamento. Comentários de jogadores, mudanças de política das lojas e novas regras de direitos autorais podem exigir ajustes. Um responsável dentro do estúdio por revisar o tema a cada atualização do jogo evita surpresas.
Vale lembrar que, segundo o GAMES.GG, a fiscalização é limitada e o número real de jogos que usam IA pode ser maior. A transparência, portanto, depende mais da postura do estúdio do que da cobrança externa.
Transparência como ativo
Num mercado em que a confiança pesa na decisão de compra, explicar com clareza como o jogo foi feito se torna um diferencial. Richard Lucas da Silva Miranda, fundador da LT Studios, resume a ideia ao afirmar que o estúdio que fala abertamente sobre o uso de IA protege a reputação e o vínculo com a comunidade, algo que nenhuma ferramenta consegue substituir.

