As discussões acerca do envelhecimento concentram-se, via de regra, nas atividades recomendadas aos idosos, tais como os exercícios físicos recomendados, a dieta mais apropriada e os exames de saúde a serem realizados periodicamente. O Dr. Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, informa que uma questão menos frequente, mas igualmente pertinente, permanece em segundo plano: o que leva uma pessoa a querer continuar participando ativamente da sua própria vida ao longo dessa fase, para além de qualquer prescrição médica específica?
O tema ganhou destaque recentemente no debate sobre envelhecimento, inclusive no 10º Congresso Sul-Brasileiro de Geriatria e Gerontologia, realizado em agosto, que teve como tema central “envelhecimento, ciência, propósito, saúde e sustentabilidade”. O evento reconheceu formalmente que o propósito de vida integra a discussão científica sobre longevidade, não se restringindo à reflexão filosófica sobre o envelhecer com dignidade.
Ao longo deste artigo, será abordado como ter motivos concretos para continuar ativo influencia a saúde, o que acontece quando papéis importantes se perdem e por que construir novos objetivos depois dos sessenta continua sendo perfeitamente possível.
A importância do propósito na saúde física e mental de pessoas com mais de 60 anos
O propósito, em sua essência, transcende a grandiosidade de projetos e a realização de feitos extraordinários. Ele reside na sensação de que a própria rotina, ainda que composta por atividades simples e cotidianas realizadas com regularidade, possui significado e direção. O doutor Yuri Silva Portela enfatiza que essa sensação de direção influencia diretamente a disposição física, a qualidade do sono e até a adesão a tratamentos médicos. Isso cria uma conexão direta entre o bem-estar psicológico e os resultados de saúde mensuráveis ao longo do tempo.

A aposentadoria, a mudança de papel familiar ou a perda de responsabilidades antes centrais na rotina podem gerar um vazio que, sem um preenchimento consciente, pode levar ao isolamento e à perda progressiva de motivação para atividades cotidianas antes valorizadas e praticadas com prazer genuíno.
Reconstruir propósito depois de perder papéis antigos
Quando um indivíduo deixa de exercer uma profissão, de cuidar diretamente dos filhos ou de desempenhar qualquer outra função que tenha estruturado sua identidade ao longo de décadas, a ausência dessa atividade pode gerar uma sensação de vazio difícil de expressar e enfrentar sozinho. Nesse momento, reconstruir o propósito não significa replicar exatamente o que existia antes, mas encontrar novas fontes de significado, sejam elas voluntariado, projetos pessoais adiados por anos, aprendizado de algo novo ou fortalecimento de relações sociais já existentes.
A participação comunitária, as atividades culturais e os projetos que envolvem a transmissão da experiência acumulada a outras gerações geralmente apresentam resultados satisfatórios nesse processo de reconstrução, uma vez que conectam o indivíduo a um propósito maior do que ele mesmo, sem exigir o mesmo ritmo ou responsabilidade que os papéis anteriores demandavam ao longo da vida profissional ativa e intensa.
Propósito como parte da saúde, não apenas do bem-estar
A correta associação entre propósito de vida, saúde mental e autonomia amplia a concepção do cuidado geriátrico, incluindo a análise de motivação e engajamento, além dos sintomas físicos tradicionais já consolidados na prática clínica. O Dr. Yuri Silva Portela destaca que essa dimensão frequentemente determina a aderência de pacientes às recomendações médicas, uma vez que pessoas com senso de propósito preservado tendem a se engajar mais ativamente no próprio cuidado ao longo do tempo.
O propósito de vida na velhice não é um luxo restrito a poucos, mas um elemento concreto de saúde que merece a mesma atenção dedicada a indicadores clínicos tradicionais. O Dr. Yuri Silva Portela, como pós-graduado em geriatria, reafirma que estabelecer novos objetivos após os 60 anos, longe de ser uma exceção, representa uma etapa esperada e saudável de qualquer trajetória de envelhecimento bem vivida e plena de significado.

