Um dos aspectos mais relevantes do envelhecimento populacional no Brasil é o impacto que ele produz sobre os serviços de urgência e emergência. Yuri Silva Portela, fundador do projeto social Humaniza Sertão, indica que as Unidades de Pronto Atendimento e os pronto-socorros hospitalares foram concebidos para resolver problemas agudos, pontuais e de resolução rápida. O idoso, no entanto, raramente se enquadra nesse perfil. Ele chega com múltiplas doenças crônicas, lista extensa de medicamentos, histórico clínico complexo e necessidades que extrapolam qualquer protocolo de triagem convencional.
Nos próximos parágrafos, você encontrará uma análise sobre o que acontece quando um modelo de cuidado encontra um paciente para o qual não foi preparado.
A triagem que não enxerga a complexidade geriátrica
Os sistemas de triagem utilizados nas UPAs e pronto-socorros brasileiros, em sua maioria baseados no Protocolo de Manchester, foram desenvolvidos para classificar a gravidade com base em sinais e sintomas objetivos e imediatos. O problema é que o idoso frequentemente apresenta quadros graves com sintomas atípicos: uma pneumonia que se manifesta como confusão mental, um infarto que se apresenta como fraqueza generalizada, uma infecção urinária que produz delirium sem febre.
Como aponta Yuri Silva Portela, essa atipicidade da apresentação clínica geriátrica faz com que idosos sejam sistematicamente subtriados, classificados em categorias de menor urgência, quando, na verdade, estão em situação de risco elevado. O resultado é uma espera prolongada em ambientes inadequados, com consequências que vão desde a piora clínica até eventos adversos graves como quedas, desidratação e delirium induzido pelo próprio ambiente hospitalar.
O ambiente emergencial como fator de risco para o idoso
A estrutura física e organizacional dos serviços de urgência foi concebida para fluxo rápido, não para permanência prolongada. Macas duras, iluminação intensa, ruído constante, ausência de acompanhante em muitos períodos e restrição de mobilidade compõem um ambiente que, para o idoso frágil, funciona como fator de risco independente para deterioração clínica. O delirium, síndrome de confusão mental aguda com alta mortalidade em idosos, tem nos ambientes de emergência um de seus principais gatilhos.

O tempo que o idoso passa na UPA ou no pronto-socorro esperando por uma vaga de internação ou por resultado de exames não é um período neutro: é um período de risco ativo. Afinal, cada hora em um ambiente inadequado representa exposição a potenciais danos que nenhum protocolo de triagem contabiliza e que nenhuma família antecipa quando leva o parente ao serviço de emergência, ressalta Yuri Silva Portela.
A lacuna entre o que o idoso precisa e o que o serviço oferece
O atendimento ideal ao idoso em crise aguda exige avaliação multidimensional, revisão de medicamentos, identificação de síndromes geriátricas, comunicação com a família e planejamento de continuidade do cuidado após a alta. Nada disso está previsto nos fluxos de atendimento emergencial convencionais, que priorizam estabilização clínica imediata e liberação do leito.
Conforme analisa Yuri Silva Portela, a consequência mais visível dessa lacuna é o fenômeno das reinternações precoces, dado que idosos que recebem alta da UPA sem um plano de cuidado adequado retornam ao serviço de emergência em poucos dias, frequentemente em condição pior do que na primeira visita. Esse ciclo de atendimentos fragmentados e reinternações é, ao mesmo tempo, um indicador de falha sistêmica e um enorme desperdício de recursos.
O que precisa mudar para que a emergência cuide bem do idoso?
Algumas experiências brasileiras e internacionais demonstram que a criação de fluxos específicos para idosos dentro dos serviços de urgência, com triagem adaptada, espaços adequados e equipes com formação geriátrica mínima, reduz significativamente complicações, tempo de permanência e reinternações. Não se trata de construir novos serviços, mas de adaptar os existentes à realidade de uma população que já representa parcela expressiva da demanda emergencial.
Segundo Yuri Silva Portela, enquanto essa adaptação não acontece de forma sistêmica, cabe aos profissionais de saúde que atuam nesses ambientes desenvolver sensibilidade clínica para reconhecer o idoso frágil diante deles e oferecer, dentro dos limites do possível, um cuidado que respeite sua complexidade e preserve sua dignidade.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

